DA PISTA DE DANÇA PARA OS CAMAROTES
- Patricia Gibin
- 13 de abr. de 2020
- 3 min de leitura
Atualizado: 22 de jul. de 2025

No artigo anterior sobre desenvolvimento adulto e desenvolvimento de líderes, descrevi a metáfora do sistema operacional interno. Desta vez, trago uma das metáforas favoritas dos meus clientes: a da pista de dança. Ela se inspira na metáfora “Assista de Camarote”, de Ron Heifetz, especialista em liderança adaptativa de Harvard.
Imagine que você esteja dançando numa pista de dança, cercado por camarotes nos andares superiores. Há uma banda tocando. Como você está na pista, só consegue ver as pessoas ao seu redor. No dia seguinte, um amigo te pergunta como foi. Você responde: “A banda estava ótima e o pessoal, muito animado.”
Agora, imagine que você tivesse subido até um dos camarotes e observado lá de cima. Talvez percebesse padrões. Por exemplo: quando a banda tocava uma música mais lenta, apenas algumas pessoas dançavam; quando o ritmo acelerava, outras entravam na pista; e certas pessoas não dançavam nunca, independentemente da música. Talvez você também notasse que muita gente se aglomerava numa extremidade da casa, o mais distante possível da banda. Nesse caso, sua resposta ao amigo poderia ser: “Foi legal, mas nem todo mundo curtiu. A banda estava muito alta e muita gente ficou no fundo, o que dava a impressão de que estava lotado.”
E se esse amigo estivesse lá com você, e subissem juntos ao mesmo camarote? Será que veriam e compreenderiam as mesmas coisas? A resposta é: sim, vocês veriam o mesmo — mas não, provavelmente não compreenderiam da mesma forma. Talvez você percebesse, além da banda, os cozinheiros na cozinha ou a conversa dos proprietários sobre aumentar novamente o preço das bebidas — e seu amigo, não.
Mais um detalhe: nessa casa, existem diversos camarotes. Cada um oferece uma perspectiva diferente, de acordo com a forma como sua mente interpreta o mundo — o que a teoria do desenvolvimento adulto chama de formas da mente. Até onde você consegue subir depende do estágio de desenvolvimento em que você se encontra.
Para líderes em qualquer organização, é essencial lembrar que as pessoas ocupam camarotes diferentes. Ou seja, operam a partir de diferentes formas de compreender a realidade. A capacidade de lidar com a complexidade e enxergar o todo varia. O que é óbvio para você pode simplesmente não estar acessível ao outro — ainda.
Outro ponto importantíssimo: as escadas entre um camarote e outro também representam estágios de desenvolvimento. Esses momentos intermediários são especialmente desafiadores — muitas vezes vivenciados como crises. É quando você já não se reconhece mais nas lentes do estágio anterior, mas ainda não consegue operar plenamente a partir do novo. Mesmo quando vislumbra esse novo estágio, é comum se perceber escorregando para padrões antigos, descendo alguns degraus antes de conseguir subir de forma mais estável. Esse movimento não é uma falha — é parte natural do processo de transformação e transição entre formas de compreender o mundo.
Por fim, vale lembrar que ocupar diferentes lugares é também ser capaz de olhar para a pista de dança e, ao mesmo tempo, se enxergar nela. Quando conseguimos nos ver em meio à ação, ganhamos perspectiva: aquilo que antes nos movia sem consciência passa a ser observado — o que era sujeito se torna objeto.
Patricia Gibin é consultora e coach. Estuda e escreve sobre desenvolvimento adulto, liderança, carreira, autenticidade e propósito. É LinkedIn Top Voice.
As ideias desenvolvidas neste texto dialogam com os trabalhos de Ron Heifetz — especialmente sua metáfora “Get on the Balcony”, no contexto da liderança adaptativa — e com a teoria do desenvolvimento adulto de Robert Kegan e Jennifer Garvey Berger, que recorre à metáfora da pista e do camarote para ilustrar a ampliação de perspectiva e consciência em contextos complexos.
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